Artigo
O destino incerto de Celso Sabino
“Destino Incerto” é um dos maiores sucessos do cantor Fernando Mendes. Mas não é de música que trata este artigo. O tema aqui é política — e política, como sabemos, muitas vezes também segue caminhos imprevisíveis.
O Brasil caminha para mais um ciclo eleitoral decisivo. Em 2026, os eleitores irão às urnas para escolher presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Como ocorre em todos os anos eleitorais, os bastidores estão em intensa movimentação. Articulações, conversas reservadas, trocas de partido e cálculos eleitorais já dominam os corredores de Brasília e das capitais.
Entre os nomes que ainda não definiram claramente seu rumo político está o ex-ministro do Turismo e atual deputado federal Celso Sabino. Sabino foi expulso do União Brasil no ano passado, acusado de descumprir orientações da legenda. Desde então, permanece sem partido e ainda não anunciou oficialmente qual cargo pretende disputar nas eleições deste ano.
Nos bastidores, duas possibilidades aparecem com mais força: a disputa por uma vaga no Senado — cargo que, segundo ele próprio afirma, aparece de forma favorável em algumas sondagens — ou a tentativa de reeleição para a Câmara dos Deputados.
Recentemente, em Brasília, durante uma conversa informal com amigos e jornalistas, Sabino foi questionado sobre seus planos políticos. A resposta veio em tom que misturava humor e provocação:
"Se nada der certo nas eleições de 2026, vou me mudar para Canaã dos Carajás e disputar — e ganhar — a eleição para prefeito em 2028.”
A frase, dita aparentemente em tom descontraído, acabou provocando reflexões. Para quem conhece a dinâmica da política na região de Carajás, a declaração inevitavelmente remete a episódios do passado.
Uma lembrança da política de Canaã
Voltemos ao ano de 2002. Naquele período, eu exercia a função de Chefe de Gabinete da Prefeitura de Canaã dos Carajás, na gestão do então prefeito Anuar Alves da Silva.
O município vivia um momento de intensa transformação econômica e social com a implantação do Projeto Sossego, desenvolvido pela Vale por meio da Mineração Serra do Sossego. Era um período de grande expectativa, marcado por investimentos, crescimento populacional e forte efervescência política.
Naquele mesmo contexto, o então deputado estadual Cláudio Almeida passou a ser citado nos bastidores como possível candidato à Prefeitura de Canaã nas eleições de 2004. Nos corredores da política — a famosa “boca miúda” — corria a informação de que ele transferiria seu domicílio eleitoral para o município.
Ao tomar conhecimento dessa movimentação, levei a informação ao prefeito Anuar Alves. Ele descartou a hipótese. Segundo ele, Cláudio Almeida era aliado político e amigo pessoal.
Mas a política tem suas próprias regras.
Poucos meses depois, o rumor se confirmou: Cláudio Almeida transferiu seu domicílio eleitoral para Canaã dos Carajás. A partir daquele momento, o ambiente político da cidade mudou. A gestão municipal entrou precocemente em clima de disputa eleitoral, desviando parte da atenção da administração para o embate político.
O desfecho é conhecido: ao concentrar suas atenções na candidatura de Cláudio Almeida — que considerava o adversário mais forte — o prefeito acabou subestimando um outro concorrente que corria discretamente por fora. O jovem petista Joseilton Ribita surpreendeu e venceu as eleições de 2004, tornando-se o mais jovem prefeito eleito da história do município. Já a candidatura de Cláudio Almeida terminou com desempenho muito abaixo do esperado.
Canaã: riqueza que desperta cobiça
A comparação não é perfeita, mas serve como reflexão.
Diferentemente daquele episódio, Celso Sabino já possui alguma base política em Canaã dos Carajás. Em 2024, quando presidia o União Brasil no Pará, participou de uma articulação política que resultou na eleição de três vereadores do partido para a Câmara Municipal.
Ainda assim, sua declaração levanta questionamentos.
Canaã dos Carajás tornou-se, nas últimas duas décadas, um dos municípios economicamente mais relevantes do Brasil. Impulsionado pelos grandes projetos minerais da Vale — como o Sossego e o S11D — o município passou a ter um orçamento anual superior a R$ 2 bilhões, maior que o de muitas capitais brasileiras.
Esse cenário naturalmente atrai interesses políticos. E não apenas da região, mas de todo o estado do Pará — ou até mesmo de fora dele.
O peso das palavras
Talvez a frase de Celso Sabino tenha sido apenas uma brincadeira. Na política, comentários informais muitas vezes são apenas isso: comentários.
Mas também pode ter sido algo mais.
Chama atenção, sobretudo, o fato de a declaração vir de um político que, durante o plebiscito sobre a criação do estado de Carajás em 2011, esteve entre os líderes da campanha do “não”, chegando a se referir à região, em determinados momentos, como um território de “forasteiros”.
Por isso, mesmo que dita em tom de humor, a frase pode revelar algo maior: a percepção de que regiões economicamente fortes acabam se tornando alvo permanente de projetos de poder.
Quando a política passa a enxergar territórios ricos apenas como oportunidades eleitorais ou planos alternativos de carreira, surge um alerta legítimo.
Porque Canaã dos Carajás não é apenas um município rico.
É uma cidade construída pelo trabalho de milhares de brasileiros que vieram de todas as partes do país em busca de oportunidades.
E, como costuma se dizer na tradição bíblica, Canaã continua sendo vista por muitos como “a terra que emana leite e mel”.
E onde há riqueza, inevitavelmente, também há cobiça.
Carlos Magno
Jornalista – DRT/PA 2627