A atuação da Vale S.A. voltou ao centro de duras críticas em Canaã dos Carajás. Desta vez, a mineradora é acusada de falhas graves de comunicação e falta de transparência no processo seletivo do Programa Jovem Aprendiz Sossego – Vale Metais Básicos & Terminais 2026.
Iniciado em 15 de dezembro de 2025, o processo mobilizou centenas de jovens — em sua maioria oriundos de escolas públicas e de famílias de baixa renda — que viam na oportunidade uma porta de entrada para o mercado de trabalho.
Após meses de etapas e avaliações, o que deveria representar esperança acabou se transformando em frustração e incerteza. Muitos candidatos relatam que, mesmo tendo avançado em fases importantes do processo, jamais receberam qualquer retorno oficial sobre o resultado final.
O silêncio prolongado gerou indignação. Jovens afirmam que ficaram paralisados, evitando buscar outras oportunidades por medo de perder uma eventual convocação — tornando-se reféns de uma espera sem prazo, sem orientação e sem qualquer posicionamento claro.
“Estamos desde dezembro participando das etapas e até agora nenhuma resposta. É uma angústia enorme, porque simplesmente não sabemos o que aconteceu”, relatou um candidato, sob condição de anonimato.
Outro jovem destacou o esforço pessoal para participar da seleção:
“Passei por todas as etapas, corri atrás de documentação, enfrentei dificuldades. Agora estamos quase no meio do ano e não tivemos nenhuma resposta. Isso não é só falta de comunicação — é falta de respeito.”
A situação levanta um questionamento inevitável: qual é, na prática, o compromisso social da mineradora com o município onde mantém operações bilionárias?
Canaã dos Carajás abriga projetos estratégicos da empresa, como a Mina do Sossego e o S11D — considerado um dos maiores empreendimentos de mineração do mundo. Ainda assim, jovens da própria cidade denunciam descaso em um programa que deveria simbolizar inclusão e oportunidade.
O processo seletivo foi conduzido com apoio da empresa Serhum Consultoria e Assessoria em Recursos Humanos, responsável pelas etapas de recrutamento.
VERSÃO DA VALE
Procurada pela reportagem, a Vale informou, por meio de sua assessoria de comunicação, que o processo seletivo foi concluído dentro do cronograma previsto. Segundo a empresa, 67 jovens foram selecionados e já iniciaram aulas teóricas no Senai, em Canaã dos Carajás.
A mineradora afirmou ainda que todas as comunicações foram realizadas por meio dos canais oficiais e reforçou seu compromisso com a transparência, com o respeito aos candidatos e com o desenvolvimento das comunidades onde atua.
CONTRADIÇÃO E DESCONTENTAMENTO
Apesar da nota oficial, o posicionamento da empresa gerou ainda mais questionamentos entre os participantes.
Um dos candidatos ouvidos pela reportagem afirma que chegou até a fase de entrevista com gestores da empresa e acompanhou constantemente seus canais de comunicação, sem receber qualquer retorno.
“Eu e outros colegas chegamos até a entrevista final. Ficamos monitorando e-mail o tempo todo e nunca recebemos resposta. Agora dizem que tudo foi comunicado. Isso causa estranheza e aumenta ainda mais a frustração”, afirmou.
Segundo ele, a principal falha não está apenas no resultado, mas na ausência de comunicação clara e acessível.
“Não é possível que, em um mundo totalmente conectado, uma empresa do porte da Vale não consiga garantir uma comunicação eficiente com os candidatos. Isso é muito triste.”
COBRANÇA POR TRANSPARÊNCIA
Diante do cenário, cresce a cobrança por mais clareza, responsabilidade e respeito com os jovens de Canaã dos Carajás.
A crítica central não se limita ao resultado do processo seletivo, mas à condução da comunicação. Para os candidatos, o problema é a falta de retorno, de orientação e de transparência ao longo das etapas finais.
É nesse ponto que a insatisfação se intensifica: não se trata apenas de quem foi aprovado ou não, mas de como centenas de jovens foram deixados sem informação, sem resposta e sem qualquer previsibilidade.
UMA QUESTÃO DE RESPONSABILIDADE SOCIAL
A postura da mineradora evidencia um distanciamento preocupante entre discurso institucional e prática.
Empresas que exploram recursos naturais em larga escala têm, inevitavelmente, uma responsabilidade social proporcional ao impacto que geram. E essa responsabilidade passa, necessariamente, pelo respeito às pessoas — especialmente à juventude local.
Quando falta transparência, sobra desconfiança.
Quando falta comunicação, cresce a indignação.
E, neste caso, o silêncio — ou a comunicação falha — deixa de ser apenas um problema operacional e passa a ser percebido como desrespeito.
Carlos Magno
Jornalista – DRT/PA 2627