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Por TV E RÁDIO WEB CIDADE
Publicado em 11/05/2026 14:24
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White House Blues

 

Por Jorio Dauster - colaborador especial do Relatório Reservado 

 

Para desespero da extrema direita brasileira — especialmente daqueles reles antipatriotas que já sonharam em ter acesso privilegiado e irrestrito à Casa Branca — a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Washington superou até mesmo as melhores expectativas do Palácio do Planalto e de muitos brasileiros que temiam um desastre diplomático de proporções históricas, algo comparável ao traumático “7 x 1” da Seleção Brasileira.

 

O êxito do encontro ficou evidente desde o primeiro momento: do cumprimento cordial e respeitoso na chegada — sem o famoso “abraço de urso”, frequentemente utilizado como demonstração velada de superioridade política — até os elogios públicos feitos posteriormente pelo presidente norte-americano Donald Trump, que classificou Lula como um líder “bom”, “dinâmico” e “inteligente”.

 

Com duração inesperadamente longa, ultrapassando três horas de conversa, o encontro foi, inquestionavelmente, positivo. Embora tenha permitido um exame ainda superficial de temas geopolíticos sensíveis, concentrou-se, de forma pragmática, em assuntos estratégicos e econômicos de grande relevância para ambos os países, como minerais críticos, combate às facções criminosas e fortalecimento do comércio bilateral.

 

No entanto, como certamente Donald Trump não estava interessado apenas em proporcionar uma fotografia amistosa ao lado de Lula — uma espécie de santinho eleitoral internacional com ambos sorrindo para as câmeras —, cabe analisar por que a “convocação” para a reunião ocorreu de forma tão acelerada: anunciada numa sexta-feira e realizada apenas seis dias depois, conferindo ao encontro um claro caráter de urgência diplomática.

 

A menos que se acredite em coincidências improváveis, a explicação mais plausível parece estar relacionada à ausência do secretário de Estado Marco Rubio, figura que naturalmente deveria integrar uma reunião envolvendo o principal mandatário da América Latina. Rubio encontrava-se em visita oficial ao Papa e não foi substituído por nenhum representante do Departamento de Estado — atualmente dominado por alas mais radicais da direita norte-americana.

 

Essa ausência acabou retirando da pauta temas espinhosos como Venezuela e Cuba, assuntos que Lula aparentemente tentou abordar ao oferecer mediação diplomática, mas que não encontraram receptividade concreta do lado norte-americano.

 

Também ficaram de fora as reiteradas reclamações de grandes bancos e das big techs contra o sistema financeiro brasileiro, especialmente em relação ao Pix, tema que vinha sendo tratado anteriormente como prioridade por setores econômicos dos Estados Unidos.

 

Diante disso, torna-se inevitável reconhecer que, após um ano e meio de turbulências provocadas pelo próprio Trump na política internacional, o presidente norte-americano parece agora interessado em “normalizar” as relações com o Brasil, priorizando sobretudo questões econômicas e comerciais.

 

Sinal inequívoco dessa mudança foi a composição da delegação norte-americana: Trump apareceu acompanhado politicamente pelo vice-presidente J. D. Vance e pela chefe de gabinete Susie Wiles, mas operacionalmente cercado apenas por integrantes diretamente ligados à economia — Scott Bessent, Howard Lutnick e Jamieson Greer.

 

Até aí, tudo parece normal. Mas será apenas isso?

 

O que levaria Trump, pressionado por conflitos internacionais e dificuldades crescentes no cenário doméstico, a acelerar justamente agora uma reunião anunciada desde março e que aparentemente permanecia adormecida nas gavetas diplomáticas dos dois países?

 

Num exercício quase maquiavélico de interpretação política, alguns poderiam questionar: teria Trump buscado explorar um suposto momento de fragilidade de Lula após derrotas recentes no Congresso Nacional? Queria impulsionar eleitoralmente o bolsonarismo ao interferir, ainda que indiretamente, no cenário político brasileiro?

 

Se essa fosse realmente a intenção, porém, por qual motivo Trump teria aceitado abrir mão do tradicional encontro prévio no Salão Oval — palco onde já constrangeu e humilhou líderes internacionais diante das câmeras?

 

A resposta parece relativamente simples: porque essa não era sua intenção.

 

Ao contrário, Trump talvez desejasse transmitir ao mundo — especialmente à Europa — a mensagem de que é possível manter relações pragmáticas, produtivas e respeitosas até mesmo com governantes que defendem posições ideológicas frontalmente opostas às suas.

 

É uma explicação elegante. Diplomática. Daquelas que encantam chancelerias, abastecem comunicados oficiais e produzem análises confortáveis para comentaristas políticos.

 

Mas talvez a realidade seja mais profunda.

 

Afinal, seria plausível imaginar que toda essa movimentação diplomática tivesse como resultado concreto apenas a criação de um grupo de trabalho com prazo de 30 dias para discutir os instrumentos da chamada “Seção 301”?

 

O tempo provavelmente oferecerá respostas mais consistentes. Até lá, contudo, duas hipóteses parecem merecer atenção.

 

A primeira está relacionada ao acelerado desgaste político de Trump, inclusive dentro do próprio eleitorado republicano, às vésperas das decisivas eleições de meio de mandato.

 

Com exceção da Venezuela, suas aventuras internacionais produziram resultados limitados e vêm causando impactos inflacionários crescentes dentro dos Estados Unidos. Nesse contexto, Trump parece buscar uma postura internacional menos agressiva, como demonstram seus esforços recentes para conter conflitos envolvendo Irã, Ucrânia e Líbano.

 

No caso brasileiro, Trump sabe perfeitamente que ataques diretos contra Lula costumam produzir efeito contrário. Além disso, compreende o impacto que produtos como café e carne bovina têm no bolso do consumidor norte-americano, não existindo justificativa econômica concreta para punir um parceiro comercial que historicamente apresenta déficit em suas trocas financeiras com os Estados Unidos.

 

Nesse cenário mais moderado, até mesmo ameaças extremas — como uma eventual invasão de Cuba — poderiam ser interpretadas apenas como mais uma de suas típicas bravatas políticas.

 

A segunda hipótese envolve um dos assuntos mais estratégicos da atualidade: as chamadas terras raras e os minerais críticos.

 

Amparado pela recente decisão da Câmara dos Deputados favorável à multilateralidade na exploração desses recursos, Lula chegou a Washington sem precisar enfrentar a absurda ideia de exclusividade norte-americana que vinha circulando como “balão de ensaio”.

 

Coincidência ou não, surgiram informações de que a LHG Mining, ligada aos irmãos Batista, estaria discutindo com a Vale S.A. investimentos conjuntos nesse setor estratégico — possivelmente com participação futura de grandes grupos norte-americanos ligados ao círculo de Jared Kushner.

 

E há ainda um detalhe relevante: Trump visitará China nos dias 14 e 15 deste mês, encontro também anunciado desde março, no qual as terras raras e o estreito de Ormuz estarão inevitavelmente no centro das discussões.

 

Como Brasil, China e Estados Unidos concentram algumas das maiores reservas mundiais desses minerais estratégicos, torna-se evidente que os três países integram hoje o núcleo geopolítico que ajudará a definir os rumos econômicos, tecnológicos e energéticos do planeta nas próximas décadas.

 

Sobre Jorio Dauster

 

Jorio Dauster é diplomata, empresário e tradutor brasileiro. Ingressou no Itamaraty em 1961 e teve atuação destacada na política econômica internacional do Brasil. Presidiu o antigo Instituto Brasileiro do Café (IBC), foi negociador da dívida externa brasileira nos anos 1990 e embaixador do Brasil junto à União Europeia, em Bruxelas. Também presidiu a Vale após a privatização da empresa e ganhou reconhecimento como tradutor de importantes obras da literatura mundial.

 

Carlos Magno 

Jornalista DRT/PA 2627

 

Conteúdo publicado originalmente pelo Relatório Reservado

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