Artigo – por Carlos Magno
Faltando menos de 90 dias para o início das convenções partidárias das eleições de 2026, a indefinição na aliança entre MDB e PT no Pará deixou de ser apenas um impasse político e passou a representar um risco concreto para o projeto de poder em curso no estado.
O MDB, liderado pelo ex-governador Helder Barbalho, ainda não definiu quem será o candidato a vice na chapa encabeçada pela atual governadora Hana Ghassan, já anunciada como postulante à reeleição. Essa demora, em um cenário político onde tempo é ativo estratégico, tem gerado inquietação dentro da base aliada — especialmente no PT.
O Partido dos Trabalhadores, por sua vez, não apenas se organizou, como já construiu uma posição clara e unificada. Após encontros em Santarém, Marabá e Belém, todas as correntes internas do partido fecharam questão em torno do nome do deputado estadual Dirceu Ten Caten para compor a vaga de vice-governador na chapa do MDB.
Mais do que uma reivindicação pontual, trata-se de uma cobrança política sustentada por fatos. O PT tem sido um dos pilares de sustentação do governo de Helder Barbalho desde o início. O partido ocupou espaços estratégicos, garantiu governabilidade e contribuiu decisivamente para a estabilidade política da atual gestão.
Além disso, o peso do governo federal não pode ser ignorado. Sob a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Pará recebeu investimentos robustos — especialmente em Belém e região metropolitana — com destaque para os mais de R$ 5 bilhões destinados à preparação da COP30. Foi também decisão direta de Lula a escolha de Belém como sede do evento, quando havia forte resistência internacional.
No campo político-administrativo, o gesto de confiança ao MDB foi ainda mais explícito: a entrega de um dos ministérios mais relevantes da Esplanada — o das Cidades — ao ministro Jader Filho, irmão de Helder Barbalho.
Diante desse cenário, a cobrança petista por reciprocidade não é apenas legítima — é previsível.
Nos bastidores do MDB, no entanto, cresce a especulação de que o partido avalia nomes fora do PT para a vice, especialmente ligados aos segmentos evangélico ou do agronegócio, numa estratégia de ampliação eleitoral. Essa movimentação, embora politicamente compreensível, pode ter um custo elevado.
O PT já deixou claro o seu limite.
Durante as comemorações do aniversário do partido em Marabá, suas principais lideranças foram categóricas: caso o MDB não ceda a vaga de vice, o partido lançará candidatura própria ao governo do estado, com o senador Beto Faro como cabeça de chapa, e Dirceu Ten Caten disputando o Senado. Mais do que isso, o PT também sinalizou que poderá entregar todos os cargos que ocupa no governo estadual.
Esse movimento não deve ser subestimado.
Uma eventual candidatura isolada do PT criaria um novo eixo político no Pará, fragmentando a base de apoio do governo e abrindo espaço para disputas imprevisíveis. Mais do que isso: retiraria de Hana Ghassan o apoio de um partido que historicamente tem forte capilaridade eleitoral no estado.
Os números das últimas eleições presidenciais reforçam esse alerta: o presidente Lula venceu reiteradamente no Pará, consolidando o estado como um dos principais redutos eleitorais do PT no Norte do país. Ignorar essa realidade pode significar enfraquecer significativamente o projeto eleitoral do MDB em 2026.
Por outro lado, para o PT, uma candidatura própria não é apenas uma ameaça — é também uma estratégia. Garantiria ao presidente Lula um palanque sólido no estado, com discurso alinhado, identidade política clara e autonomia na condução da campanha.
O que está em jogo, portanto, vai muito além da escolha de um nome para vice-governador.
Trata-se de uma decisão que pode redefinir o equilíbrio político no Pará, influenciar diretamente o desempenho eleitoral das principais forças em disputa e testar, na prática, o grau de lealdade entre aliados históricos.
O tempo está correndo — e, na política, indefinição prolongada costuma ter um preço alto.
Carlos Magno
Jornalista DRT/PA 2627
Profundo conhecedor dos bastidores da política paraense desde 1982